Uma microgeografia de um poder

23/10/2014

Para ser um geógrafo ou um historiador, requer ser um bom observador. Observar uma cena ou uma paisagem. Fatos e atos dos personagens que compõem e participam do ambiente. Em cenários urbanos e rurais, suburbanos e ambientais. Observar os movimentos sociais e culturais; os atos políticos e atos populares; as cenas e os eventos militares e cívicos, naturais ou artificiais; cíclicos e esporádicos.

Pesquisar é observar e descrever o que enxerga, para que outros olhos que não visualizaram algo, possam também enxergar. Andar por outros caminhos para que outros pés, que não conseguiram caminhar, possam com outros pés, ali chegar. Descrever um fato com o auxílio das mãos, para que outras mãos que ali não estiveram, consigam manusear. E possam com outras mãos e outros olhos, descrever sobre um mesmo fato, a partir de pés posicionados em outro lugar.

Existem mídias que servem para escrever e desenhar, esculpir e pintar, fotografar e gravar. Essas mídias existem para que outros, que não possam ir a algum lugar, possam chegar com suas ideias e visões, quando sobre essas mídias mirar, ler e observar. Depois refletir e analisar. E pelas mídias impressas ou expressas possam naquele lugar desconhecido chegar. Com as mídias que retratam e contam um fato descrevendo um cenário, dai então poder entender um pouco, mesmo que com outros olhos, e a partir de outros lugares, sem nunca ter ido lá.

No tempo passado a história oficial esteve restrita a documentos oficiais, arquivados em repartições e estabelecimentos oficiais. Documentos escritos em espaços restritos, sem o acesso do cidadão comum. E os pintores e escultores tiveram a responsabilidade de informar. Colocar tintas sobre uma tela, com fatos e atos acontecidos, para transmitir um conhecimento. Descreveram uma geografia ou uma história, utilizando duas dimensões, com óleos sobre as telas. Com um bloco de madeira ou pedra, puderam entalhar e descrever um conhecimento em três dimensões. Com metais fundidos ou moldados, puderam novamente criar. E este conhecimento estava contido em microgeografias, definidas pelos limites de cidades e países. Somente viajantes e comerciantes poderiam ver e transportar as mídias.

Jê em um tempo muito mais distante, secular e milenar, o conhecimento estava contido em escrituras, com escritas e gravuras. Passou de um conhecimento oral para depois atingir outras mídias, cunhadas e grafadas em papiros e blocos de argila. Estabeleceram assim, poderes por uma microgeografia, já que eram conhecimentos que se restringiam a aldeias e povoamentos. Somente um viajante poderia ter ou obter aqueles conhecimentos. E precisava de uma mídia e um transporte para levar a outros lugares aqueles conhecimentos em mídias difíceis de serem transportadas.

E uma elite cultural pode ter acesso a museus e pinacotecas, tentando visualizar e reconhecer, entender alguns fatos e acontecimentos, na linha do tempo e da historia. Reconheceu cenas e fatos, em esculturas e telas, sob o olhar do autor, aquele que esculpiu ou pintou. Ainda que por muitas das vezes fossem retratados ou esculpidos, fatos sobre uma mídia artística e elementos da arte. Cenas que nem o próprio autor esteve presente, valorizando-se então as técnicas, as habilidades e os dotes do autor, desenhista, pintor ou escultor. Retratou um fato ou um acontecimento por ideias que tinha, com algum ou nenhum conhecimento. E o autor fez a sua obra, à sua imagem e semelhança, criou a obra com o seu conhecimento, da maneira que via e enxergava.

Enquanto o geógrafo descreve um momento, ou um cenário, o historiador descreve a participação do homem em um cenário, nos mesmos cenários geográficos. Momentos que se passaram ao longo de uma linha no espaço e no tempo. A geografia descreve um presente, enquanto a história descreve um passado. Passados e presentes que podem ser vistos e obsevados por diversos olhares e diversos ângulos. Cada observador tem uma história própria, que influencia o seu olhar. Enquanto a geografia descreve algo em um ponto no espaço. E a historia descreve um ponto, em um momento do tempo. Geografia e historia definem o espaço e o tempo de um elemento.

Introspecção é o ato de olhar para dentro, analisar seus processos internos. E instituições e institutos fazem um olhar interno, baseados em seus membros, seus arquivos e seus conhecimentos. Olham para dentro de seus interesses e objetivos. Institutos têm por finalidade instituir símbolos e monumentos que eternizem uma história. Um olhar de preservação dos seus conteúdos institucionalizados. Internalizam seu conhecimento.

E um olhar para si, não faz enxergar a sua própria geografia. Uma microgeografia contida em suas instalações. Ainda que dentro de uma cidade grande, existe uma geografia predial, com instalações internas e seus ocupantes, podendo ser identificada e planejada por plantas de engenheiros e arquitetos.

É preciso fazer um afastamento, um olhar de fora, um afastar de suas instalações físicas. Posicionando-se em um ponto mais alto para observar, tal como um satélite que do alto pode ver o que acontece, sem participar de um cenário. Um afastar de sua microgeografia que institui um poder reinante. Tal como reinou seus fundadores, seguiram seus sucessores. Um poder de dominação interna, tal como os moradores de uma casa, possam se precaver de atos e movimentos de um estranho aquele lar. Poderes demarcados por espaços em seus auditórios, com cadeiras reservadas e diferentes tamanhos nos encostos, definindo uma importância de quem a ocupa. E a posição de tribuna. Uma posição inatacável de quem assume. Um poder e um discurso autorizado pelos presentes.

Institutos instituem algumas regras de comportamento interno, com barreiras de defesa e dominação para que outros, então tenham que promover e enfrentar batalhas cruzando linhas de fogo para cruzar suas fronteiras. Regras de dominação e poder com regras de conduzir um conhecimento.

Pecam por sua própria microgeografia. Com o poder de modificar seu próprio ambiente, preferem não modificar. Preocupados com o poder externo, acabam por se adaptar ao ambiente em que vivem. Um ambiente de tornar o passado presente com a preservação de gestos, quadros e mobiliários que remetem ao seu próprio passado, eternizado em seus atos e ideias.

Nas grandes cidades um dos transportes mais rápido, e mais eficaz é o metro. Parte de um ponto distante na Zona Norte da cidade, atravessa o centro da cidade e chega a um ponto distante na Zona Sul, e vice-versa. Seus ocupantes atravessam a cidade, de Norte a Sul. Trafega-se embalado pelo tempo, por baixo de ruas e praças, sem obsevar o espaço em que vivem. Outros transportes modernos, que vem sendo implantados são os BRTs e VLTs, que trafegam por vias ou corredores próprios, sem rotas alternativas.

Membros de um instituto podem atravessar a cidade sem se dar conta de paisagens belas e caos urbanos. Depois chegam a um instituto onde são remetidos a um passado com critérios de comportamentos, mobiliário e quadros antigos expostos em paredes. E se vive ali naquele espaço, um passado. Não enxergam e não vivenciam o presente nas ruas, e discutem um futuro.

 
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